Novas instalações

A bilheteira do Ainda Há Bilhetes, devido à rescisão do contrato de arrendamento por parte da Altice, mudou-se para esta nova morada, desta vez em instalações próprias: aindahabilhetes.pt.

Não tendo sido um pioneiro da blogosfera, cheguei a ela ainda antes da segunda vaga. Penso, e isto é uma opinião muito pessoal, que a explosão inicial da blogosfera portuguesa deveu bastante ao convívio próximo de um grupo cosmopolita ligado ao jornalismo, à cultura, à política e à academia. Foi graças a um cliente meu, ele próprio jornalista reformado e próximo de um partido político, que comecei a perceber o que estava a acontecer. Isto foi pouco antes de um texto no Expresso, então sim, torná-la um fenómeno público graças à visibilidade de autores como Francisco José Viegas, Pacheco Pereira, Pedro Mexia e João Pereira Coutinho, e trazendo para o palco gente como Carla Quevedo, os Gato Fedorento, Alberto Gonçalves ou o Pipi.

Desde o início que fui criando contas e blogues nas várias plataformas que descobria: WordPress, Blogger, My Opera, até cheguei a ter uma conta no Twitter. Interessei-me muito pelo potencial de expressão que estas ferramentas permitiam a anónimos como eu, e recordo-me de vários personagens que fui criando: uma vaga de heterónimos que desconheço se nasceram para me permitir ser quem não sou, ou para poder ser quem realmente sou. Em nome próprio, porém, o espólio que produzi resumiu-se, durante anos, a comentários feitos em outros blogues.

O Ainda Há Bilhetes acabou por nascer após o Armindo Paulo Ferreira, autor do Ecos Imprevistos, blogue onde eu comentava com frequência, me incentivar a publicar em “nome próprio” em vez de apenas em casas alheias. A minha ideia inicial para o Bilhetes era usá-lo para agregar o que comentava noutros blogues, talvez até desenvolvendo alguns desses textos. Contudo, rapidamente o Bilhetes evoluiu para um registo de expressão muito mais pessoal. Penso que isso se deveu, em grande medida, à capacidade que a Equipa dos Blogues (sendo o Pedro Neves um dos elementos mais visíveis) teve de fazer desta plataforma uma comunidade.

Assim, o Bilhetes foi acumulando jogos de palavras que só eu compreendo, instantâneos da realidade, algumas opiniões, pequenos recortes dos meus consumos artísticos. E também momentos, mais ou menos disfarçados, pelos quais fantasiei o destino fazendo certa e determinada pessoa tropeçar ao acaso neste blogue e pensar, ao lê-los, “hum, será que…?”

Este encerramento da plataforma de blogues entristece-me. É como fazer parte de uma turma que, ao terminar o 12º ano, se despede com promessas de que todos manterão o contacto – apenas para a vida ir dispersando os seus caminhos. Sobre o que penso da decisão da Altice, talvez escreva no futuro. Não é o tempo para críticas. Este texto de inauguração pretende ser, ao invés, um agradecimento à Equipa dos Blogues pelo que conseguiu fazer.

E agora, ainda mais improvável será que Ela alguma vez os leia.