Autor: João Sousa
Cinismo vs. pessimismo
As pessoas equivalem com frequência o cinismo ao pessimismo. Nada mais errado. É certo que um pessimista, com o tempo, se pode tornar um cínico. Mas há pelo menos uma diferença fundamental entre os dois: enquanto o cínico gosta de ter razão, o pessimista receia ter razão. Ao contrário do cínico, o pessimista quer é não ter razão. No fundo, o pessimista é um optimista derrotado pelos seus dados empíricos. Por isso, entre uma derrota e uma desilusão, é esta que o afecta, pois significa que se permitiu acreditar na possibilidade de estar errado.
O estado da nação

Novas instalações
A bilheteira do Ainda Há Bilhetes, devido à rescisão do contrato de arrendamento por parte da Altice, mudou-se para esta nova morada, desta vez em instalações próprias: aindahabilhetes.pt.
Não tendo sido um pioneiro da blogosfera, cheguei a ela ainda antes da segunda vaga. Penso, e isto é uma opinião muito pessoal, que a explosão inicial da blogosfera portuguesa deveu bastante ao convívio próximo de um grupo cosmopolita ligado ao jornalismo, à cultura, à política e à academia. Foi graças a um cliente meu, ele próprio jornalista reformado e próximo de um partido político, que comecei a perceber o que estava a acontecer. Isto foi pouco antes de um texto no Expresso, então sim, torná-la um fenómeno público graças à visibilidade de autores como Francisco José Viegas, Pacheco Pereira, Pedro Mexia e João Pereira Coutinho, e trazendo para o palco gente como Carla Quevedo, os Gato Fedorento, Alberto Gonçalves ou o Pipi.
Desde o início que fui criando contas e blogues nas várias plataformas que descobria: WordPress, Blogger, My Opera, até cheguei a ter uma conta no Twitter. Interessei-me muito pelo potencial de expressão que estas ferramentas permitiam a anónimos como eu, e recordo-me de vários personagens que fui criando: uma vaga de heterónimos que desconheço se nasceram para me permitir ser quem não sou, ou para poder ser quem realmente sou. Em nome próprio, porém, o espólio que produzi resumiu-se, durante anos, a comentários feitos em outros blogues.
O Ainda Há Bilhetes acabou por nascer após o Armindo Paulo Ferreira, autor do Ecos Imprevistos, blogue onde eu comentava com frequência, me incentivar a publicar em “nome próprio” em vez de apenas em casas alheias. A minha ideia inicial para o Bilhetes era usá-lo para agregar o que comentava noutros blogues, talvez até desenvolvendo alguns desses textos. Contudo, rapidamente o Bilhetes evoluiu para um registo de expressão muito mais pessoal. Penso que isso se deveu, em grande medida, à capacidade que a Equipa dos Blogues (sendo o Pedro Neves um dos elementos mais visíveis) teve de fazer desta plataforma uma comunidade.
Assim, o Bilhetes foi acumulando jogos de palavras que só eu compreendo, instantâneos da realidade, algumas opiniões, pequenos recortes dos meus consumos artísticos. E também momentos, mais ou menos disfarçados, pelos quais fantasiei o destino fazendo certa e determinada pessoa tropeçar ao acaso neste blogue e pensar, ao lê-los, “hum, será que…?”
Este encerramento da plataforma de blogues entristece-me. É como fazer parte de uma turma que, ao terminar o 12º ano, se despede com promessas de que todos manterão o contacto – apenas para a vida ir dispersando os seus caminhos. Sobre o que penso da decisão da Altice, talvez escreva no futuro. Não é o tempo para críticas. Este texto de inauguração pretende ser, ao invés, um agradecimento à Equipa dos Blogues pelo que conseguiu fazer.
E agora, ainda mais improvável será que Ela alguma vez os leia.
É o que é
“Eu estava a começar a gostar daquilo. Isso queria dizer que eram horas de ir andando.”
Peter Chambers, O Caso da Moldura de Ouro
São Valentim
Sentado ao computador, sinto o sol a aquecer-me e vejo o céu apenas salpicado por farrapos de nuvens. Faz-me pensar numa tarde de há muitos, demasiados anos (doze? mais?). Ao regressar a casa, falhara o barco por poucos segundos e sentara-me na sala de embarque, preparado para a quase hora de espera. A sala estava vazia e quieta, com raras pessoas atravessando o terminal lá fora – tal como a minha casa está, agora, vazia e quieta, e ouço passos ocasionais na rua. O sol, entrando pelas grandes janelas atrás de mim, terminava um período de várias semanas de tempo cinzento: o céu estivera quase em permanência coberto por nuvens e a chuva, mesmo se não tão intensa como a que nos assolou nestes últimos dias, caíra miúda e persistente, dando ao próprio ar a sensação de uma humidade cinzenta. Ter o sol a aquecer-me a nuca e o pescoço, naquela tarde, retirava-me toneladas dos ombros e parecia um prenúncio da Primavera.
E então, Ela chegou.
Há muito que isto não acontecia. Eu já aceitara, com alguma melancolia, o esgotamento dos acasos do universo que durante meses me permitiram coincidir com ela no espaço e no tempo. Vê-la entrar, e segui-la com os olhos enquanto se sentava no canto oposto, ligava os auscultadores ao telefone e colocava-os nos ouvidos, fez-me pensar nesses acasos. Tivesse eu entrado noutra carruagem do metropolitano e talvez ganhasse tempo suficiente para apanhar o barco, e estaria naquela altura a meio do rio, sem saber o que perdera ganhando. E quantas vezes, antes, um passe mais renitente a sair do bolso, ou uma marcha mais apressada, tiveram influência semelhante?
Mas foi uma calma fugaz pois, logo a seguir, a velha cigana entrou na sala de embarque e eu conformei-me com o fim do sossego. Ela era a metade feminina de um já idoso casal de ciganos que se revezavam nas idas à cidade. Por qualquer razão que me escapava, pareciam ter-me adoptado informalmente, falando-me dos pequenos nadas sempre que me viam:
– E este dia hoje, tão quente que está? Já começo a estar demasiado velho para isto…
– E esta chuvinha tão chata de hoje? Tive que estar sempre a montar e a desmontar a banca…
Por isso, conformei-me. Mas talvez por, encadeada pelo sol, não me ter reconhecido no outro extremo da sala, ou por entre a “família” e o empreendorismo ter escolhido o segundo, a verdade é que a velhota, naquele dia, foi sentar-se ao lado d’Ela. Deixou passar uns minutos, abriu o grande saco que trazia, remexeu lá dentro e tirou uma peça de roupa que lhe mostrou, reforçada por uma qualquer ladainha de comerciante. Sendo a sala demasiado grande para eu a ouvir, imaginei o que estaria a dizer:
“Olhe lá, menina linda, este casaquinho tão barato que fica tão bem com essa blusa que traz…”
Ela olhou para a velhota, tirou os auscultadores dos ouvidos, ouviu-a durante uns segundos e, com um sorriso, negou com um gesto da cabeça, recolocando depois os auscultadores. Mas a cigana não esmoreceu. Devolvendo ao saco o que tinha nas mãos e tirando outra coisa, voltou a promover-lhe algo. E de novo Ela olhou, tirou os auscultadores, ouviu-a durante uns segundos e, com um sorriso, negou com a cabeça, recolocando os auscultadores.
E eu, no outro extremo da sala, observava-a, extático, e questionava-me como era possível alguém conseguir pôr tanta graciosidade em gestos tão banais.
Visto por aí [6]
I am the business.

[Deckard’s apartment after Rachael killed Leon]
Deckard: Shakes? Me too.
Rachael: What?
Deckard: I get ‘em bad. It’s part of the business.
Rachael: I’m not in the business… I am the business.
Ioga matinal
O apagão
Com tantas Inteligências Artificiais a serem criadas, ainda iremos descobrir que este apagão foi o primeiro ataque do Skynet.


