Dia mundial do livro

“Fargas meteu as mãos nos bolsos das calças e passeou junto dos livros, oscilando sobre a perna inválida, olhando-os um a um. Parecia um magro e desastrado Montgomery que passasse revista às suas tropas em El Alamein.

– Às vezes nem lhes toco nem os abro. – Detivera-se, inclinando-se para reajustar um volume na sua fila, sobre a velha alcatifa. – Limito-me a limpar-lhes o pó e a contemplá-los durante horas. Conheço em pormenor o que há sob cada encadernação (…)

Corso folheou um livro. Era um exemplar magnífico, também com margens muito largas. Devolveu-o ao seu lugar com cuidado antes de se erguer, limpando os óculos com o lenço. Aquilo era capaz de provocar suores ao mais frio.

– O senhor não está bom da cabeça. Se vendesse isto tudo, não teria problemas económicos.

– Eu sei. – Fargas inclinou-se para rectificar imperceptivelmente a posição do livro. – Mas se vendesse isto tudo, já não teria razão para continuar a viver e portanto ser-me-ia indiferente deixar de ter problemas.”

Arturo Pérez-Reverte, O Clube Dumas

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