A filosofia do bêbado

Há uns dias, acompanhei a exposição que um bêbado fazia sobre O Amigo, essa instituição que costuma (a par, digo eu, d’A Amiga Feia* e d’O Amigo Gay) estar associada à Miúda Gira.

Os bares e as tascas, na altura em que os solitários – mesmo se, ou principalmente se(!), imersos num grupo – já estão inebriados o suficiente, são uma escola de filosofia. A filosofia dos bêbados, injustamente recebida com troça pelos seus companheiros e vizinhos, pode ser exposta em metáforas algo coloridas – mas isso não retira à sua correcção. É preciso ter consciência de que, bastas vezes, o bêbado não filosofa ao desbarato: aquilo que lhe sai, ora em lamentos chorosos, ora em acusações ressentidas, não são devaneios de ocasião mas, ao invés, ideias trabalhadas de há muito (os gozões chamam-lhe antes “ressabiadas”) e, amiúde, apenas viram a luz do dia graças à desinibição etílica.

(*) Pedro Mexia já falou sobre A Amiga Feia (Nada De Melancolia, pg. 206) – mas não reconheceu, então, a existência dos outros. Reservo-me, portanto, a glória da descoberta.

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