Tugaspotting

“O edifício de apartamentos não tinha ninguém a administrá-lo. (…) No primeiro andar, havia três chineses, bem como os habituais ‘chicanos, e no segundo vivia um cavalheiro japonês e seis jovens da Cidade do México que possuíam um único fato de um branco-leitoso – cada um podia usá-lo uma noite por semana. Também havia alguns portugueses, um guarda-nocturno do Haiti, dois vendedores das Filipinas e mais ‘chicanos.”

[Ray Bradbury, A Morte É Um Acto Solitário, 1985]

Um círculo de acasos

Fui ao stand da Tinta da China comprar o Malparado de Pedro Mexia. A rapariga que estava a atender era giríssima. Tenho a certeza de que o próprio Mexia, um assumido esteta, aprovaria com um sorriso este círculo de acasos: os seus livros, onde ele tanto (e tão bem) escreve sobre raparigas giras, a serem entregues ao leitor por uma rapariga gira.

Pessimismo [8]

(…) Depois bateu uma dúzia de vezes no vidro, na fútil esperança de que o ponteiro estivesse preso embora, na realidade, nunca duvidasse da sua mensagem. Uma notícia que é suficientemente má leva geralmente consigo a sua própria garantia de verdade. Só as boas notícias precisam de ser confirmadas.

[Arthur C. Clarke, Expedição à Terra]

Leitores e ciência

Com tantos blogues de gente voluntariosa que lê freneticamente, não vi nunca menção a um único livro de divulgação científica. A ser sincero, nem sequer me recordo de ver alguém, num transporte público, a ler um livro de divulgação científica. Não estou a sugerir que andasse toda a gente a ler o Mundos Paralelos de Michio Kaku, menos ainda o Breve História do Tempo de Stephen Hawking, por vezes algo herméticos para os não-iniciados. Mas é que nem o Cosmos de Carl Sagan, que se lê como um romance, nem sequer uma das para-autobiografias de Richard Feynman, que se lêem como uma comédia.

… porque hoje é o dia mundial do beijo

After all, what is a kiss?
An oath that’s given closer than before;
A promise more precise; the sealing of
Confessions that till then were barely breathed;
A ruby O to spell the verb: I love!
A secret that’s confided to a mouth
And not to ears; a precious moment of
Infinity that buzzes like a bee;
Communion with the fragrance flowers have;
A gentle way for heart to breathe a heart,
For soul from fervid lips to drink a soul!

(Cyrano de Bergerac, original de Edmond Rostand, tradução para inglês
de Charles Renauld)

O novo blockbuster

Reparei há pouco, ao passar por uma Fnac, que José Rodrigues dos Santos perpetrou um novo livro. Recordo-me de ele, há um par de anos, dizer a seguinte pérola:

“Ler um romance meu é como estar a ver uma grande produção de Hollywood.”

Concordo por inteiro. Tanto o livro de Rodrigues dos Santos como o blockbuster hollywoodesco fazem-se anunciar por maciças campanhas publicitárias; depois revelam-se longos, cansativos, barulhentos, histéricos, pouco credíveis; no fim, deixam ambos a sensação de tempo e dinheiro desperdiçados.