Ele notou, alvoroçado, que a miúda gira estava a olhar para ele insistentemente. Depois pensou, descoroçoado, que a miúda gira também olharia insistentemente para um acidente na auto-estrada.
A palavra é uma arma
Jason Bourne, no primeiro filme, usa uma esferográfica como arma durante uma luta, no segundo uma revista e no terceiro um livro. Sempre me questionei se haverá uma moral sugerida por estas coincidências.
Ser ou estar
“Não sei. É como descrever a cor a um cego. Ele não pode perceber.”
(in “Irrealidades Virtuais” de Alfred Bester)
Imaginei o oposto: “Não sei. É como descrever ser cego a quem vê. Ele não pode perceber”. Quem vê pode saber o que é estar cego – basta fechar os olhos. Mas quem vê, se o fizer, sabe também que lhe bastará abrir os olhos para regressar ao mundo tal como o conhece. E isso não o fará perceber o que é ser cego.
Bond, James Bond
Há anos, o mais frequente era ouvir-se dizer: “Sean Connery é o verdadeiro James Bond”. Hoje, já ouço que não, que Daniel Craig é o melhor Bond. Ora a minha opinião é esta: concedo que Craig possa ser um melhor Bond do que Connery, mas também é verdade que o Bond que foi posto à disposição de Craig é muito melhor do que aquele com que Connery teve de trabalhar.
Vénus vs. Vénus
Olhemos bem para Vénus: tem uma atmosfera composta por 96% de dióxido de carbono e tão densa que, à superfície, a pressão é 92 vezes maior do que na Terra; está completamente oculto por um espesso manto de nuvens de ácido sulfúrico; o efeito de estufa é tão intenso que a temperatura mínima na superfície ronda os 460º C.
Dificilmente se conseguiria imaginar local mais hostil. Parece-me, por isso, quase premonitório que os Antigos, sem saberem tais factos, tenham dado a este planeta capaz de asfixiar, esmagar, corroer e assar um homem – o nome da deusa do amor.
Momento zen a 36 graus
Parque Eduardo VII, sentado à sombra a ler contos de Stevenson. Seria perfeito – não estivesse o maldito mosquedo particularmente irritante.
The Little Fête
I take a bottle of wine and I go drink it among the flowers.
We are always three – counting my shadow and my friend the shimmering moon.
Happily the moon knows nothing of drinking, and my shadow is never thirsty.
When I sing, the moon listens to me in silence. When I dance, my shadow dances too.
After all festivities the guests must depart; this sadness I do not know.
When I go home, the moon goes with me and my shadow follows me.
(Li-Po, séc. VIII – tradução J. C. Cooper)
Gadgets
Se há gadget próximo da perfeição, esse gadget é o papel: barato; nunca fica sem bateria; reciclável; não estala ou avaria com uma queda de dois palmos; não fica infectado com malware; não precisa de actualizações de segurança diárias; não “pendura” a meio de um documento de seis páginas que nos esquecemos de gravar; não demora um minuto a ligar – abre-se e está pronto; não se transforma num tijolo inútil se falhar o sinal wifi ou 3g; e se dermos por nós sem espaço para gravar mais informação, basta entrarmos numa qualquer papelaria e resolvemos o problema com uma moeda de euro.
Guilty pleasures [1]
Guilty pleasure
Guilty pleasure: algo de que gostamos mas com a consciência de que não devíamos gostar.
