Tiro-lhe o chapéu

Vasco Graça Moura dá ordem aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico e para que os conversores sejam desinstalados de todos os computadores da instituição.

Mal li que Graça Moura ia para o CCB, questionei-me sobre o que ele faria em relação ao AO. Eis. Embora seja legítimo questionar se VGM terá o direito de impor a sua posição pessoal num assunto que é, supostamente, letra de lei, aprecio infinitamente o gesto. E agora, fico à espera dos próximos episódios.

Sol, sol, sol, sol, sol…

Eu estou cá na minha de que a culpa disto recai no Acordo Ortográfico. Com a ideia peregrina de retirar as maiúsculas às estações, o Inverno sente-se despromovido. Ao ver-se simplesmente inverno, entrou numa crise de identidade e já não sabe o que é suposto ser. Esqueceu-se da chuva, esqueceu-se dos nevoeiros, parece até ter-se esquecido das geadas que cobriam as bermas. Apenas nos dá estas manhãs razoavelmente frescas e tardes confortavelmente amenas.

O Tempo

A papelaria onde comprei os meus primeiros livros está hoje fechada, o vidro da montra tapado com jornais queimados pelo Sol. A azinhaga por onde regressávamos, não por ser o caminho mais curto, mas precisamente pelo contrário, já não tem razão para ser percorrida. Amores tornaram-se um nome da agenda com quem são trocadas mensagens de circunstância no Natal.

O comandante lascivo

A história pode ser contada em poucas palavras. O comandante da Polícia Municipal de Coimbra, Euclides Santos, enviou por correio electrónico uma mensagem natalícia aos funcionários da Câmara – mas essa mensagem tinha a forma de um powerpoint manhoso que combinava votos de boas festas com imagens de senhoras exibindo o trabalho dos seus cirurgiões plásticos. Minutos depois, deu-se conta do sucedido e enviou desculpas – mas o Presidente da Câmara achou por bem suspendê-lo e instaurar um processo disciplinar.

Raras vezes tenho encontrado tão vasto consenso nacional. Da Esquerda à Direita, reina a solidariedade para com o comandante. A Esquerda saliva por poder chamar “puritano direitolas” ao presidente da Câmara, eleito pelo PSD. A Direita fica satisfeita por se mostrar “progressiva” e liberal: “o que o comandante faz com os amigos não deve ser matéria pública”.

Aparentemente, sou uma das quatro pessoas no país que acha muito bem que se suspenda o sr. Comandante.

A mim, não me preocupa nada que o sr. Euclides Santos troque emails picantes (ou mais do que isso) com os seus amigalhaços. Na verdade, pelo contrário: deve ser sinal de se tratar de um “gajo porreiro”, com quem seria divertido beber umas imperiais e comer uma caracolada. Aquilo que um detentor de cargos públicos faz na sua privacidade não me interessa para nada – desde que não seja ilegal nem vá contra posições que ele defenda publicamente.

O problema, aqui, é que o powerpoint manhoso não foi enviado pelo sr. Euclides Santos aos seus amigalhaços – foi enviado pelo comandante da Polícia Municipal Euclides Santos, durante o expediente, a todos os funcionários da Câmara. E isto não tem defesa.

É que se o comandante pensava estar na sua conta privada, é mau: acho incorrecto que usasse o horário de trabalho e equipamentos pagos pelo contribuinte para tratar da sua vidinha. Se, pelo contrário, o comandante usava conscientemente a conta de trabalho, pensava estar a enviar um outro ficheiro e enganou-se, é mau pois tal significaria que já tinha usado o computador de trabalho para os seus lazeres pessoais.

Mas é, acima de tudo, uma questão de dignidade institucional que é necessário defender para algumas posições. Que autoridade pode invocar um comandante que envia emails oficiais a desejar “um bom ano com sexo incrivel”?

Steve Jobs

 

Os super-homens também são mortais. Nascem, crescem, amam, odeiam, são poderosos, são frágeis. Morrem.

Desde que Jobs se retirou da Apple, há uma frase que volteia na minha cabeça. É algo dito por Hannibal Lecter a Clarice, no final do Silêncio Dos Inocentes: “The world is more interesting with you in it”. Tentei hoje encontrar algo inteligente e/ou profundo para dizer, mas eu sou apenas eu. Na sua enganadora simplicidade, talvez aquelas palavras sejam suficientes: o mundo foi mais interessante com ele cá. E esperemos que o mundo saiba ser mais interessante por ele ter cá estado.