Tolerante

“Corso ia tomando notas. Exigente, despreocupado e letal como uma mamba negra, defini-lo-ia assim mais tarde um dos seus conhecidos quando o seu nome veio à baila. Tinha uma forma singular de se posicionar em relação às outras pessoas, de olhar através dos óculos torcidos e de concordar lentamente, com uma certa falta de convicção razoável e bem-intencionada, como uma rameira a ouvir, tolerante, um soneto sobre Cupido.”

Arturo Pérez-Reverte, O Clube Dumas

6 comentários em “Tolerante”

  1. Nunca li nada deste autor nem sequer de nome o conheço, mas pelo pequeno excerto que aqui nos oferece, imagino-o um autor que se lê com gosto.
    A definição que do personagem foi feita, tem tanto de humor como de sarcasmo.

    Realmente, para alguém que vende o corpo, ou aluga, vá, ter de ouvir declamar sonetos de amor, quiçá, em pleno labor, o revirar de olhos tanto pode entender-se por tolerância como supremo enjoo. Coitada, ela lá quer saber de Cupido…

    1. É razoavelmente popular nas vendas e respeitado pela opinião. Este livro, em particular, esteve na base de um filmezinho interessante realizado pelo Roman Polanski.

      1. Provavelmente o filme que refere é “Ninth Gate”.
        Fiquei curiosa e fiz uma leve pesquisa, no Google.
        Não vi, não. Estive a ler a sinopse e agora entendi a personagem ‘Corso’ e esse seu jeito dúbio de ser.
        Obrigada e boa noite.

        1. Sim, é esse o filme. Não tem a riqueza do livro, até porque apenas utiliza metade do novelo narrativo deste, mas revejo-o ocasionalmente em DVD sem achar esse tempo desperdiçado. Há também o pormenor de, tal como o livro, fazer uma passagem por Sintra.

          Boa noite.

          1. Apesar da conhecida frase que nos afiança: «Uma imagem vale mais que mil palavras», nenhuma adaptação de romances, sejam quais forem os géneros literários, ao cinema, conseguem ser mais interessantes, ricos e motivadores, do que os livros.

            Constatei isso com várias versões cinematográficas de outras tantas obras-primas literárias. Nomeio apenas um exemplo, entre tantos. “Amor Em Tempos de Cólera” de GGM, que li e reli, foi uma desilusão no cinema.

            Bom dia!

          2. Por norma, a realidade corrobora o seu primeiro parágrafo. Tem alguma razão de ser que assim seja. Um livro demora várias noites de leitura, havendo assim muito tempo e espaço para desenvolver e depurar uma ideia. Não é fácil condensar isso tudo nas duas ou três horas de que o filme dispõe.

            Posto isto, há provas de que é possível. Assim de repente ocorrem-me quatro: A Oeste Nada de Novo (filme de 1930), Morte em Veneza, O Leopardo, e O Padrinho. O Padrinho, dizem alguns, conseguiu mesmo melhorar um livro original que já era muito bom.

            É possível. Não é fácil. Mas também, se fosse fácil, o bom não teria o valor que tem.

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