Era um grande optimista por natureza – foi por isso que o fracasso o atingiu tão duramente.
(in O Ano Do Apocalipse, de Brian Aldiss)
um blogue pessoal de João Sousa
Era um grande optimista por natureza – foi por isso que o fracasso o atingiu tão duramente.
(in O Ano Do Apocalipse, de Brian Aldiss)

Se eu for apanhado a aliviar a bexiga contra a parede dos Jerónimos, serei punido por atentar contra o património público. Porquê, então, estas manifestações públicas de negligência ortográfica serem imunes à coima? É que neste exemplo não é possível invocar (com cara séria) o álibi da confusão acordista, nem sequer uma hipotética produção em Espanha de painéis que transformam o grave “proibido” em gravíssimo “proibído”. Aqui, trata-se apenas de puro desleixo.
Estes dias de Setembro, quando as tardes já adormecem frescas, parecem-me agora o fim de algo. Não o fim de algo que aconteceu, nem sequer o fim de algo que poderia acontecer – apenas o fim de algo que nunca acontecerá.
Quando são oito e a escuridão já cobre as janelas, Setembro anuncia-me as longas noites em que é impossível fugir às memórias.
Dois comparsas falavam apaixonadamente, enquanto desciam a rua, de uns quaisquer jogos de futebol que haviam visto ontem. Nunca me deixa de surpreender – e entreter – a facilidade com que vêem penalties não assinalados. Dão um pontapé numa pedra solta da calçada, olham com atenção para o buraco – e lá descobrem mais dois penalties. Mandassem eles, e os resultados dos jogos de futebol mais pareciam de andebol.
Não sei se temos, em Portugal, o hábito de tomar uma decisão para o Ano Novo. Eu experimentei pela primeira vez. Antes de ouvir o foguetório da meia-noite, prometi a mim mesmo que este ano faria diariamente algum exercício.
Quebrei ontem a promessa.
Eu estou cá na minha de que a culpa disto recai no Acordo Ortográfico. Com a ideia peregrina de retirar as maiúsculas às estações, o Inverno sente-se despromovido. Ao ver-se simplesmente inverno, entrou numa crise de identidade e já não sabe o que é suposto ser. Esqueceu-se da chuva, esqueceu-se dos nevoeiros, parece até ter-se esquecido das geadas que cobriam as bermas. Apenas nos dá estas manhãs razoavelmente frescas e tardes confortavelmente amenas.