A culpa, claro, é do sistema

Ligo à Vodafone para marcar a instalação de fibra num cliente (situação que já se vem arrastando há duas ou três semanas).

O sistema de atendimento informatizado pede-me o NIF do cliente para poder reencaminhar para o gestor do processo.

Escrevo o NIF do cliente no teclado do telefone.

O sistema de atendimento informatizado diz-me que está a passar a chamada.

Aguardo.

Atende-me depois uma senhora. A primeira coisa que faz: pedir-me o NIF do cliente para poder reencaminhar para o gestor do processo.

O peso das palavras

Eu acho que se devia deixar de chamar “suicida” ao piloto do Airbus 320 e passar ao uso do termo correcto: “assassino em massa”. Quando alguém, aos comandos de um avião comercial com 150 outras almas a bordo, se tranca na cabina e se lança contra uma montanha, não está apenas a suicidar-se – pretende, sim, plantar uma bandeira na memória colectiva.

A bandeira está plantada, sim senhor. E, como sempre nestas situações, torna-se mais lamentável ainda que meio mundo fique a saber o seu nome, a sua cara e o seu gosto para roupa desportiva – mas quem é capaz de nomear uma única das suas vítimas?

São Valentim?

Dia dos Namorados? Há muito tempo que São Valentim não tem nada a ver com isso. Aliás, há muito tempo que São Valentim está a receber a pensão de invalidez.

Recordo-me de, há poucos anos, um restaurante ter promovido esta noite com uma campanha: um casal de namorados levaria um casal de encalhados e teriam 10% de desconto. O que o restaurante não anunciou previamente foi esta pequena surpresa: no final da refeição, com a conta, o empregado também transportaria na bandeja – um preservativo para os encalhados. Talvez até se permitisse uma piscadela de olho malandra.

Há uns dias, esperava pelo barco para Lisboa, sentou-se perto de mim uma senhora que começou a folhear a Maria (ou coisa parecida). Ela faz parte, habitualmente, do grupo que sempre parece existir em todos os transportes de/para o trabalho, a versão funcionária-pública do quarteto d’O Sexo e a Cidade. Mas como se terá atrasado nas pinturas matinais, calhou a ir sozinha e puxou da literatura.

Ouvi-a a passar as páginas com alguma rapidez, até que a certa altura abrandou o ritmo. Deitei uma olhadela pelo canto do olho, curioso em saber o que lhe teria despertado o interesse. Tinha chegado às páginas centrais, e havia um suplemento: “SEXO” (assim mesmo, titulado em maiúsculas), e o artigo de fundo era Dia de São Valentim: Dez Novas Posições Para A Noite Mais Romântica. Com imagens esquemáticas. Um destes anos, serão fotografias. Mais uns anos, e será um DVD promocional.

Não compreendo. São os homens que, supostamente, dão “demasiada importância” ao sexo, mas não há revista feminina, da cosmopolita Cosmopolitan à sopeira Telenovelas, que deixe passar um número sem qualquer referência ao tema (e com chamada de capa):

Os melhores locais para sexo no trabalho

Os segredos do dating online

As melhores posições para sexo no chuveiro

Ponha-o louco com a sua boca

Ensine-o a dar-lhe orgasmos múltiplos

O mapa para o seu ponto-G

Seja a amante que ele quer

Solte as garras e seja uma fera no sexo

Truques para ter prazer SEMPRE

Conheça a nova moda das relações abertas

Comida afrodisíaca para uma noite escaldante

Dicas para ter melhor sexo

São Valentim: dez novas posições para a noite mais romântica do ano

Cinco exercícios para aumentar o prazer do orgasmo

Prazer a dobrar

Saiba como encontrar bons amantes no Facebook

O sexo, como é bom de ver, tornou-se um bem de consumo que vem com manual de instruções; é um direito adquirido consagrado na Constituição, que se combina por SMS ou no Facebook, e em cuja prática se investe menos, emocionalmente, do que numa ida a um restaurante de sushi.

Já não há sedução nem se sabe apreciar a expectativa da incerteza. Não se quer alguém com quem ter uma ligação especial; cria-se, ao invés, uma coutada privada com amigos/as positivos/as e que não dêem chatices, à qual se pode ir sempre que der a vontade de caçar.

O nosso pequenino mundo da bola

Luis Filipe Vieira, presidente do Benfica, queria a presença do Presidente da República e do Primeiro-Ministro na inauguração do Museu Cosme Damião. A justificação que dá é magnífica: um museu que celebra a história de um clube não será um “equipamento desportivo” mas sim um “equipamento cultural”.

Luis Filipe Vieira, recordemos, é presidente do clube que, antes da final da Taça de Portugal, entendeu não reservar cinco minutos para explicar aos seus jogadores que ia estar na tribuna um senhor magro e alto, que esse senhor é o Presidente da República, e que é do protocolo (para não falar da mais elementar boa educação) cumprimentá-lo na cerimónia pós-jogo.

Um dos problemas nos elementos que gerem o nosso futebol é a falta de sentido de proporção.

A barata biónica


Em caso de holocausto nuclear, as baratas e os Roombas herdarão a Terra.

Há uns dias, estava numa caixa Multibanco quando a minha atenção foi atraída por algo que se movia no chão. À primeira vista, senti-me tentado a pensar que algum brincalhão tinha soltado um aspirador Roomba pelas ruas de Lisboa. Com mais atenção, percebi que era uma barata.

O que comem estas criaturas na cidade para atingirem tal tamanho?