São Valentim

Observava-a naquela tarde de fim de Março, como tantas vezes já o fizera ao longo do Outono e do Inverno. Sentada do outro lado do barco, via-lhe o perfil contornado pelas cintilações do Sol na superfície quase lisa da água. Ocorreu-me, num pensamento vindo do nada, que nunca a tinha visto à chuva. Seguramente, meditei, isso teria acontecido, nem outra coisa fazia sentido – mas por mais que tentasse, nada me veio à memória. Seria ela uma das fadas que dormem nos troncos das árvores e só despertam quando o Sol lhes aquece as folhas? Mas percebi, quase de imediato, o meu erro. Era precisamente o oposto: o Sol, quando ela saía de casa, é que afastava as nuvens para a poder seguir.

Um momento de repouso antes da tempestade

É suposto eu voltar para casa. As travessias para o Seixal estão suspensas. O comboio da ponte sai quase cheio da primeira estação e a partir daí geram-se motins para entrar. Acabei agora de jantar nas Picoas, a fazer tempo para que a confusão se vá escoando e a pensar como isto é agradável fora do expediente. Faço contas às horas que vou conseguir dormir até acordar amanhã às seis. E é neste preciso momento de punhos fechados e maxilares contraídos que a MEO decide enviar-me um email de Boas Festas. Que péssimo sentido de oportunidade…