Era um grande optimista por natureza – foi por isso que o fracasso o atingiu tão duramente.
(in O Ano Do Apocalipse, de Brian Aldiss)
um blogue pessoal de João Sousa
Era um grande optimista por natureza – foi por isso que o fracasso o atingiu tão duramente.
(in O Ano Do Apocalipse, de Brian Aldiss)

Se eu for apanhado a aliviar a bexiga contra a parede dos Jerónimos, serei punido por atentar contra o património público. Porquê, então, estas manifestações públicas de negligência ortográfica serem imunes à coima? É que neste exemplo não é possível invocar (com cara séria) o álibi da confusão acordista, nem sequer uma hipotética produção em Espanha de painéis que transformam o grave “proibido” em gravíssimo “proibído”. Aqui, trata-se apenas de puro desleixo.
Estes dias de Setembro, quando as tardes já adormecem frescas, parecem-me agora o fim de algo. Não o fim de algo que aconteceu, nem sequer o fim de algo que poderia acontecer – apenas o fim de algo que nunca acontecerá.
Quando são oito e a escuridão já cobre as janelas, Setembro anuncia-me as longas noites em que é impossível fugir às memórias.
O filósofo bêbado, constante alvo de chacota, é com frequência apodado de falhado pelos companheiros. Estes, cheios de si próprios, olham para a História do falhado com a sobranceria dos vencedores. Enquanto acariciam, com ar de posse, a coxa da companheira, diagnosticam as derrotas do filósofo como resultado de má atitude, falta de coragem e inteligências semelhantes.
E, no entanto, o falhado é com frequência mais corajoso e digno do que qualquer um destes orgulhosos nietzschianos. Há muito mais valentia no eterno vencido que continua a ir às lutas sabendo que a derrota é, com certeza quase absoluta, aquilo que o aguarda.
Há uns dias, acompanhei a exposição que um bêbado fazia sobre O Amigo, essa instituição que costuma (a par, digo eu, d’A Amiga Feia* e d’O Amigo Gay) estar associada à Miúda Gira.
Os bares e as tascas, na altura em que os solitários – mesmo se, ou principalmente se(!), imersos num grupo – já estão inebriados o suficiente, são uma escola de filosofia. A filosofia dos bêbados, injustamente recebida com troça pelos seus companheiros e vizinhos, pode ser exposta em metáforas algo coloridas – mas isso não retira à sua correcção. É preciso ter consciência de que, bastas vezes, o bêbado não filosofa ao desbarato: aquilo que lhe sai, ora em lamentos chorosos, ora em acusações ressentidas, não são devaneios de ocasião mas, ao invés, ideias trabalhadas de há muito (os gozões chamam-lhe antes “ressabiadas”) e, amiúde, apenas viram a luz do dia graças à desinibição etílica.
(*) Pedro Mexia já falou sobre A Amiga Feia (Nada De Melancolia, pg. 206) – mas não reconheceu, então, a existência dos outros. Reservo-me, portanto, a glória da descoberta.
Luis Filipe Vieira, presidente do Benfica, queria a presença do Presidente da República e do Primeiro-Ministro na inauguração do Museu Cosme Damião. A justificação que dá é magnífica: um museu que celebra a história de um clube não será um “equipamento desportivo” mas sim um “equipamento cultural”.
Luis Filipe Vieira, recordemos, é presidente do clube que, antes da final da Taça de Portugal, entendeu não reservar cinco minutos para explicar aos seus jogadores que ia estar na tribuna um senhor magro e alto, que esse senhor é o Presidente da República, e que é do protocolo (para não falar da mais elementar boa educação) cumprimentá-lo na cerimónia pós-jogo.
Um dos problemas nos elementos que gerem o nosso futebol é a falta de sentido de proporção.

Há uns dias, estava numa caixa Multibanco quando a minha atenção foi atraída por algo que se movia no chão. À primeira vista, senti-me tentado a pensar que algum brincalhão tinha soltado um aspirador Roomba pelas ruas de Lisboa. Com mais atenção, percebi que era uma barata.
O que comem estas criaturas na cidade para atingirem tal tamanho?
Dois comparsas falavam apaixonadamente, enquanto desciam a rua, de uns quaisquer jogos de futebol que haviam visto ontem. Nunca me deixa de surpreender – e entreter – a facilidade com que vêem penalties não assinalados. Dão um pontapé numa pedra solta da calçada, olham com atenção para o buraco – e lá descobrem mais dois penalties. Mandassem eles, e os resultados dos jogos de futebol mais pareciam de andebol.
É vulgar fazer-se a piada do “quero um emprego, não um trabalho”. Fico, por isso, divertido: a CITE, ao ser a Comissão para a Igualdade no Trabalho E no Emprego (ênfase meu), também o parece fazer.
Acho igualmente uma ironia deliciosa que a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego tenha o seu pessoal assim distribuído: 7 homens e 17 mulheres.


Passei há um par de dias pela rua do Ouro e encontrei a Papelaria da Moda fechada e trancada. Desconheço se está em obras, ou se fechou em definitivo. Desejo a primeira, mas receio a segunda: neste mundo cada vez mais digital, em que uma Parker Jotter é exposta na prateleira da “escrita de luxo”, o encerramento destes estabelecimentos vai-se sucedendo e isso entristece-me.
(Fotografia daqui)