Por esta altura do ano passado, questionei quando iria a Academia Sueca sacudir o pó que a cobre e ousar a atribuição do Nobel da Literatura a um autor fora do circuito ortodoxo dos livros. Devo ter sido ouvido: este ano, o galardoado é Bob Dylan. Eu teria preferido Tom Waits ou Leonard Cohen, pois a obra de Dylan não me inspira a mesma reacção emocional, mas reconheço o seu papel e aceito a escolha sem problemas.
Qualquer um dos três mereceria receber o prémio. Pessoalmente, não gosto de Leonard Cohen, mas admiro as letras dele. Dylan e (especialmente) Waits estão quase sempre comigo.
Gostei imenso do atrevimento que a Academia Sueca teve. E é preciso que haja este atrevimento. Já o ano passado me surpreenderam ao dar um prémio a uma escritora de não-ficção, que muitos disseram que não era digna do prémio. Este ano, a cantiga é a mesma e, no fundo, estou feliz por isso.
Todos eles dizem que Dylan não merecia o Nobel. Eu começo a achar que o Nobel não merece o Dylan.
E com isto estão abertas outras portas. Não tarda temos um cómico a ganhar o Nobel da Medicina só porque as suas piadas e boa disposição fazem bem à saúde.
Seja como for, ironias à parte, para além do mérito de Dylan e da sua carreira, a verdade é que me parece uma extravagância da academia. Mas é o que é e estes prémios são naturalmente discutíveis.
Em 1997 aconteceu polémica idêntica com Dario Fo.
E que ironicamente, faleceu no dia em que foi atribuído o mesmo Nobel a Bob Dylan.
Já agora o riso é uma terapia.
E aceitar mudanças também faz bem.