De que cor…?

(…) Voltou a si e ao momento. Naquele dia vira-a mais bonita. Ela era toda bonita. De que cor eram os seus olhos, perguntavam-lhe em casa.

A mãe, admirada, perguntava-lhe:

Então, rapaz, nunca lhe viste os olhos?

Ele, a modos que zangado, respondia-lhe com alguma perturbação: Que importa os olhos, se gosto dela?

João Cabrita, Amor e Mar… Em Armação de Pêra,
parte da Antologia de Contos do Algarve (Arandis Editora, 2020)

Bob Dylan

Por esta altura do ano passado, questionei quando iria a Academia Sueca sacudir o pó que a cobre e ousar a atribuição do Nobel da Literatura a um autor fora do circuito ortodoxo dos livros. Devo ter sido ouvido: este ano, o galardoado é Bob Dylan. Eu teria preferido Tom Waits ou Leonard Cohen, pois a obra de Dylan não me inspira a mesma reacção emocional, mas reconheço o seu papel e aceito a escolha sem problemas.

…

Neste mundo, ninguém pensa em nada.  Todos se ocupam dos seus negócios, da sua fortuna, dos seus prazeres, da sua vida, enfim, ou de pequenas futilidades divertidas como o teatro, a pintura, a música ou a política, a mais vasta das bagatelas, ou de assuntos industriais. Mas quem é que pensa?

 

(Guy de Maupassant, “O Homem De Marte”)

Nobel

Chega a altura dos Nobel. Há alguns anos que me questiono: quando irá a Academia sacudir o conservadorismo e atribuir o Nobel da Literatura a um autor fora do circuito ortodoxo dos livros? Será Tom Waits, por exemplo, que escreve como poucos sobre o amor e os falhados da vida, menos digno do que um escritor quase desconhecido que “funde, com realismo alucinatório, o folclore, a história e o contemporâneo”?